be my rest, be my fantasy
Orla marítima
“O tempo das suaves raparigas
é junto ao mar ao longo das avenidas
ao sol dos solitários dias de dezembro
Tudo ali para como nas fotografias
É a tarde de agosto o rio a música o teu rosto
alegre e jovem hoje ainda quando tudo ia mudar
És tu surges de branco pela rua antigamente
noite iluminada noite de nuvens ó melhor mulher
(E nos alpes o cansado humanista canta alegremente)
«Mudança possui tudo»? Nada muda
nem sequer o cultor dos sistemáticos cuidados
levanta a dobra da tragédia nestas brancas horas
Deus anda à beira de água calça arregaçada
como um homem se deita como um homem se levanta
Somos crianças feitas para grandes férias
pássaros pedradas de calor
atiradas ao frio em redor
pássaros compêndios de vida
e morte resumida agasalhada em asas
Ali fica o retrato destes dias
Gestos e pensamentos tudo fixo
Manhã dos outros não nossa manhã
pagão solar de uma alegria calma
De terra vem a água e da água a alma
o tempo é a maré que leva e traz
o mar às praias onde eternamente somos
Sabemos agora em que medida merecemos a vida”
Ruy Belo | “Obra Poética de Ruy Belo” - Vol. 1, pág. 168 | Editorial Presença Lda., 1984
Hay un dicho que siempre se me pega
Cuando vuelvo a pensar tu nombre
Calles con filas de brazoz que nos abrazan
Hasta que no podemos respirar
Hay alguien que no me pega en la cabeza
Las vueltas donde estuvimos se han borrado en la calle
Pronto llegamos a ti
Cejas con piel café
Brincan de tu cara cuando yo te dije la verdad
Cejas con piel café
Brincan de tu cara cuando yo te dije la verdad
“We are so lightly here. It is in love that we are made; in love we disappear.”
—Leonard Cohen, Book of Longing, (McClelland & Stewart, 2006)
e, então, escrevo
da janela do santo antônio valverde, vejo um homem velho, vejo um homem velho vestido de palhaço - um enorme nariz vermelho, um chapéu, um sapato muito gasto em cada pé.
vejo, também, a cidade - a alagar lentamente. vejo o mormaço que anuncia ainda mais chuva e ainda mais umidade e mais narizes entupidos e mais medo da possibilidade dos sintomas gripais não serem, no fim das contas, simplesmente sintomas gripais.
penso sobre isso enquanto vejo o velho palhaço, até então imóvel do outro lado do semáforo. é quando a criatura, de repente, decide me mostrar a língua. assim: ele me olha nos olhos, vários quilômetros entre nós - os carros, o caos do trânsito em dia de chuva: e me mostra a língua. não é possível evitar o sorriso que se forma por baixo da minha máscara. e, ao mesmo tempo, me sinto tão pequena diante da língua ameaçadora do homem que sou tomada pelo impulso de me refugiar em algum ombro desconhecido, em algum ombro muito imediato, isto é, até mesmo no ombro desconhecido que viaja ao meu lado - e no qual, por necessidade de ser salva, eu sinto que caberia perfeitamente.
o palhaço me mostra a língua, através da cidade e da distância que nos separa. o palhaço, ao fazê-lo, me aproxima do ombro: e eu sei que, em algum momento, me afastei de mim, me afastei de mim como insisto em me afastar do ombro em que gostaria de adormecer: me afastei de mim e não sei quando conseguirei tomar o caminho de volta. não sei onde estou, não sei em que mapa, não sei em que constelação, em que esquina, em que meio de transporte, em que cidade, se na segunda ou na terceira parada. não sei quando foi a última vez que me vi, onde posso ter esquecido de mim. não sei dizer exatamente sequer onde estive pela última vez.
chego em casa e tenho certeza de que jamais voltarei a escrever.
digo isso a um amigo.
digo a um amigo que duvido até da escrita, agora, que a essa altura não acredito mais nem nisso - uma maneira de anunciar que estou um pouco mais morta do que costumava estar, quando acreditava. uma maneira de dizer que sinto medo. que me assusta de verdade quando não acredito. não digo nada a ele sobre o velho palhaço, muito menos sobre a língua ou sobre o ombro. talvez se eu tivesse dito ele não teria me perguntado desde quando a escrita é coisa em que se precisa acreditar.